[ENTREVISTA] Preservação pode ser entrave à acessibilidade em patrimônios culturais

Abaixo publico a entrevista que concedi ao Nicolas Gunkel da Agência USP de Notícias, sobre o tema da minha dissertação de mestrado:

Secretaria da Justiça em São Paulo – foto Elisa Prado

Por Nicolas Gunkel 

nicolasgunkel@gmail.com
14/09/2012

São Paulo (AUN – USP) – Uma dissertação de mestrado defendida na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU) analisa a acessibilidade em museus e centros culturais da cidade de São Paulo. A arquiteta Elisa Prado, autora da pesquisa e professora da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência, estudou as condições de acesso a bens culturais tombados e o delicado confronto entre preservação e acessibilidade. É possível assegurar o direito universal de ir e vir sem comprometer a identidade arquitetônica de um patrimônio público?

 

Para Elisa, a promoção de políticas de acessibilidade não é uma possibilidade e sim um direito de todos. “A questão não é ‘se’ fazer e sim ‘como’ fazer”, afirma. “Hoje toda edificação tombada precisa de adequações pra o uso e isso não inclui apenas a acessibilidade, mas também banheiros, infraestrutura de elétrica e sinalização.”A arquiteta exemplifica o Centro Cultural Banco do Brasil, que antes de seu tombamento era utilizado como escritório. “A dinâmica do lugar mudou, as demandas também. Essa mudança de percurso exige uma adaptação para atender às novas necessidades”, explica.

 

Elisa enumera alguns motivos pelos quais o acesso a bens culturais ainda é dificultado para pessoas com deficiência. Em primeiro lugar está a falta de informação. “Existe uma postura de achar que o tombamento impede qualquer tipo de transformação, que o lugar perderá sua identidade.” Segundo ela, tal mentalidade tem origem na lei. “A própria norma técnica prega que a acessibilidade só deve ser promovida se não trouxer prejuízo ao local. Se o órgão do patrimônio julgar que há esse dano, ele tem o poder de impedir qualquer adequação”, afirma. “Portanto, a legislação dá abertura para isso. Ela deveria pregar que o acesso é sempre possível, com seus devidos cuidados.”

 

Outro fator que atrasa a consolidação da acessibilidade como direito universal é a incompreensão de sua abrangência. “Quando falamos em acessibilidade, pensamos apenas em cadeirantes, cegos e surdos. Não levamos em conta que a acessibilidade diz respeito a um espaço seguro, confortável e com facilidades para todos. Nos esquecemos também que um dia envelheceremos, que podemos quebrar uma perna ou precisar empurrar um carrinho de bebê.”

 

Apesar da melhor sinalização e construção de elevadores nas duas últimas décadas, os centros culturais de São Paulo ainda apresentam problemas graves. “Hoje a Casa das Rosas não tem entrada acessível. Sempre que o cadeirante chega, o segurança coloca uma rampa portátil. O correto seria que o usuário pudesse entrar sem precisar de ajuda.”

 

A arquiteta não culpa, no entanto, a administração da casa. Desde 2008, o centro aguarda autorização do Órgão Estadual de Preservação do Patrimônio (SP) para a instalação de uma rampa. “Não dá pra ficar quatro anos sem resposta”, protesta. “Os usuários acabam sendo os grandes prejudicados. Então, se há algo que deve ser visto como prioridade é isso: uma maior agilidade no andamento desses processos. As pessoas não podem esperar para sempre!”

 

Segundo Elisa, a preservação não deveria ser um entrave à acessibilidade. “Quando um lugar é tombado, seja em esfera municipal, estadual ou federal, é porque há um grupo amplo de pessoas com interesse nele. Impedir que alguém frequente esse lugar para mantê-lo preservado não faz sentido algum.”

Há um mínimo de preservação e um mínimo de acessibilidade que devem ser respeitados em qualquer edificação tombada. Para que se preserve a identidade do bem cultural, deve prevalecer a distinguibilidade, isto é, a possibilidade de se discernir o que é original daquilo que foi transformado. Quanto à acessibilidade, todos devem conseguir entrar, se orientar, circular e usar os serviços com facilidade. “É importante deixar claro que ninguém deixa de ir a algum lugar por ser cadeirante. Deixa, sim, porque não há uma rampa de acesso para ele”, conclui a arquiteta Elisa Prado.

 

LINK ORIGINAL: http://www.usp.br/aun/antigo/www/_reeng/materia.php?cod_materia=1209018

 

  2 comments

  1. delcio de lima   •  

    Parabens Elisa:
    De passagem aqui pelo Brasil e fiquei impressionado com o seu despreendimento em ajudar pessoas. Parabens pois necessitava de algumas informacoes sobre rampa para minha cunhada que se tornou cadeirante. Conheco um pouco da legislacao dos Estado Unidos onde resido e tenho negocios na area de reforma rfesidencial por isto te parabenizo e se puder te ser util me contacte.

  2. Elisa Prado   •     Author

    Oi Delcio.

    Obrigada pela mensagem! Fico muito feliz de receber um retorno tão carinhoso! Descobri na acessibilidade uma excelente motivação na arquitetura.
    Abraços!

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